Entrevista com Renata Baptista: “Um dos maiores erros de abordagem dos órgãos do Estado é não ver que o criminoso, o corrupto, é um ser racional que vai ponderar os ônus e os bônus de sua atividade na busca pela própria felicidade”.

Renata Baptista busca trabalhar as questões jurídicas com os olhos abertos para o mundo. Os estudos de análise econômica do Direito — aos quais se tem voltado atualmente — vêm-na auxiliando nesse caminho. Para ela, muito além de operacionalizar o Direito em si, importa sermos “capazes de compreender problemas e de oferecer respostas que levem em conta também outros aspectos do mesmo problema”.

Por que ela escolheu o MPF? “É a única carreira que eu poderia acessar por concurso e na qual poderia trabalhar com combate à corrupção e política pública, partindo de múltiplas perspectivas”.

Raciocinando a partir de premissas lançadas por Gary Becker, diz que o criminoso (aí incluído o agente público corrupto) levará em conta as vantagens e as desvantagens de sua conduta; e que “a efetividade das punições é um fator que aumenta o ônus para o criminoso”. Segundo entende, com um Poder Judiciário que não consegue aplicar as devidas punições, os bônus da atividade criminosa superarão os seus naturais ônus.

Para ela, a convivência de várias gerações dentro do MPF é semelhante ao que vem ocorrendo no seio da própria sociedade e de suas agências — fenômeno que ela, porém, vê com certa naturalidade. Comparando nossa instituição com uma orquestra sinfônica, diz que “cada um tem a crença pessoal de que todos saberão desempenhar bem seus papéis. É um reconhecimento que nasce apesar do desconhecimento mútuo sobre a pessoa de cada um”.

Renata é entusiasta do treinamento de sua equipe na PRTO. Periodicamente, reúne-se com eles para assistir a vídeos do TED Talks sobre Economia, Psicologia e Neurociência e para falar sobre temas jurídicos específicos.

Aprovada no 25º Concurso de Procurador da República, Renata Baptista, carioca, assumiu suas funções em 2012 na Procuradoria da República no Estado de Rondônia, onde foi Procuradora Regional dos Direitos do Cidadão. Atualmente cuida de um dos ofícios do Núcleo de Combate à Corrupção da Procuradoria da República no Estado do Tocantins. Veja o interessante dedo de prosa que trocamos com ela, em nossa 13ª entrevista.

 

Economia comportamental, neurociência, sociologia e psicologia social: esses são os temas com que, além do trabalho, você tem se ocupado hoje. Acredita que a nossa atividade na Procuradoria da República é um campo fértil para essas pesquisas? Se sim, em que sentido?

Bom, em primeiro lugar, em atividades de alta performance, que requerem domínio bastante específico de normas, técnicas, linguagem e rotinas, vejo que grande parte das pessoas diretamente envolvidas (senão todas elas) estão niveladas em alto grau de excelência no campo principal de atuação.

No Ministério Público, por exemplo, ninguém duvida que os colegas são muito capacitados para oferecer respostas jurídicas (no plural, mesmo) aos problemas que lhes são apresentados. Nesse cenário, em que os integrantes estão nivelados por cima, o Direito é o que menos importa. O que importa é se somos realmente capazes de compreender problemas e de oferecer respostas que levem em conta também outros aspectos do mesmo problema. É lógico que, antes de tudo, precisamos transitar dentro do campo jurídico. Mas entre os caminhos possíveis – e, muitas vezes, até para definir o que é o jurídico ou não –, é essencial levar em consideração outros campos do saber.

O que percebo é um movimento de cada vez maior especialização jurídica: já vi uma disciplina eletiva de um curso de graduação chamada “Direito dos Contratos Internacionais do Petróleo”. É evidente que a complexidade da vida requer algum tipo de mergulho estritamente jurídico, mas talvez possa ser igualmente producente resgatar aquela formação humanística que marcou os cursos de Direito lá atrás, e sair um pouco dessa abordagem estritamente jurídica das controvérsias.

Há questões concretas que você busca responder através de suas leituras? Se sim, quais são?

Prometi a mim mesma uma espécie de período sabático depois de ingressar no MPF. Meu maior interesse passou a ser mesmo só aquele que parece mover todo ser humano, ainda que de modo geral: entender um pouco mais sobre si mesmo, conhecer um pouco mais dos outros, compreender o mundo que nos cerca… Enfim, era um projeto que parecia nada ou menos cansativo do que buscar respostas concretas, mas acho que, quando abrimos a mente, descobrimos mais perguntas e pouca coisa pode ser mais desafiadora do que descobrir mais perguntas.

Para Schopenhauer, “nossas ações e nossa biografia não são obras nossas, mas sim daquilo que ninguém considera como tal, ou seja, da nossa essência e existência… Portanto, a vida do homem já está irrevogavelmente traçada, em todos os seus pormenores, no momento do nascimento”. O estudante de neurociência hoje tende a confirmar essa visão? Acredita que a ciência chegará um dia a provar que a liberdade humana é uma ilusão, Renata?

Felizmente, acho difícil que um estudante de Neurociência chegasse a tanto. Estudos sérios de Neurociência jamais chegariam a uma afirmação tão ampla como essa. Bem, de fato, não só estudos sérios de Neurociência, como também estudos sérios de Genética e Psicologia Evolutiva, poderiam lhe dizer que há, sim, traços inatos do ser humano que influenciam decisivamente o processo de tomadas de decisão, mas não a ponto de, a partir disto, concluir que a liberdade humana é uma ilusão. Sua referência reflete bem o modo como rotineiramente se costuma atrelar genética a determinismo – e, de determinismo a soluções extremas, também se costuma das um pulo argumentativo rápido e pretensamente racional.

A lógica binária é “se há livre arbítrio, então não há traços inatos; se há traços inatos, então não há livre arbítrio”. As ciências humanas têm uma pretensão que pode ser essencialmente resumida em oferecer soluções para compreender e pensar modos de adequar o comportamento humano. Para tanto, há a premissa de que o comportamento humano é moldável. O problema é o salto argumentativo: dizer que há alguns traços inatos, imutáveis, não significa dizer que todo o comportamento está indelevelmente traçado pelos genes desde a origem e que, portanto, não é possível fornecer os estímulos certos para formar e adequar o comportamento humano de modo a viabilizar plenitude pessoal e convívio social harmônico.

Onde você passou sua infância? Que lembranças traz daquela época? Acredita que alguma circunstância daquela época acabou levando você ao Direito e, especificamente, ao Ministério Público?

Passei toda minha infância na Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. Depois, mudamos para Copacabana e, entre os 15 e 17 anos, morei em Corona, na Califórnia, Estados Unidos, por conta de um intercâmbio. Quando voltei do intercâmbio, estava em dúvida entre fazer Engenharia, Direito ou Medicina.

Tive sorte porque minha família nunca me cobrou ou precisou me cobrar uma decisão e sempre me estimularam a tomá-la com elementos concretos em mãos. Eu mesma sempre achei desumano exigir que um jovem com apenas 17, 18 anos decida tão cedo o que, presume-se, vai fazer pelos próximos muitos anos. Então, fiz vestibular para as três. Passei, mas só cursei simultaneamente Engenharia e Direito. Com pouco tempo, vi que seria difícil conciliar e nunca cheguei a cursar o ciclo específico de Engenharia. Percebi que gostava mesmo era de Direito, mas nunca desisti completa e intimamente das Exatas. Sabia que, talvez no futuro, eu pudesse conciliar.

E foi a partir dessa vontade de conciliar Exatas e Humanas que eu conheci o MPF. Quando estava no oitavo período de Direito, li por conta própria um artigo do Richard Posner que citava um artigo do Gary Becker, sobre o criminoso racional, e me interessei sobre política pública de combate à corrupção. A AGU, minha primeira experiência profissional no setor público, também tem propostas interessantes neste campo, mas existem limitadores, como o fato de não poder lidar cotidianamente com a ação penal. Escolher o MPF, então, foi questão simples: é a única carreira que eu poderia acessar por concurso e na qual poderia trabalhar com combate à corrupção e política pública, partindo de múltiplas perspectivas (micro e macro).

Você provavelmente já esteve diante de um inquérito policial e teve dúvidas sobre se era justo denunciar o investigado ou arquivar a investigação. Você acredita que existam, nesse campo, decisões substancialmente técnicas? O que você costuma levar em conta na decisão de denunciar um investigado?

Talvez esse seja mesmo o momento mais difícil das nossa atividade criminal: denunciar ou arquivar. Sem maiores dados, e na seara criminal, chuto que em 90% dos casos 90% dos colegas concordariam com a decisão tomada por um outro membro de arquivar ou denunciar – se não concordassem cabalmente, ao menos reconheceriam que ela é racional. Este alto grau de consenso parece derivar da técnica jurídica que subjaz à formação de todos nós e que permeia a análise dos fatos. E, portanto, esse consenso também parece ser uma prova de que há, sim, decisões substancialmente (e não exclusivamente) técnicas.

Os casos em que há dúvida razoável são poucos. Neles, adoto um procedimento padrão para tentar simplificar o dilema: havendo dúvida razoável, denuncio, porque assim possibilito que um ator sistemicamente idealizado para decidir (o Judiciário) possa exercer seu papel.

Você é apreciadora de heavy metal e rock clássico… A propósito, o rock brasileiro está morto, Renata?

Não tenho orgulho do que vou dizer, mas não conheço nada, nada mesmo, de rock brasileiro. Talvez porque na época em que comecei a me interessar de verdade por música ele já tivesse morrido. Quem sabe?

É uma possibilidade… Bom, concordamos então que a certidão de óbito já foi lavrada, não é? Mas, mudando de assunto, Renata, você acredita que a Justiça tem ocupado posição importante no combate à corrupção no Brasil? Carrego comigo a impressão de que o nosso trabalho de natureza punitiva, extremamente necessário, não tem alcançado a essência do problema…

Sim, o Judiciário é um ator relevante no combate à corrupção. Mas, atualmente, e de forma geral, ele vem passando estímulos ruins e, por isto, o trabalho de natureza punitiva não vem gerando os resultados esperados. A corrupção é um fenômeno complexo, mas, em essência, lida com o que há de mais intrínseco no ser humano: maximizar a própria felicidade. Um dos maiores erros de abordagem dos órgãos do Estado – o que inclui o Judiciário – é não considerar o criminoso, o ímprobo, como um ser racional que vai ponderar ônus e bônus na busca pela própria felicidade. Jamais conseguiremos anular essa busca. Mas Direito é uma ferramenta disponível para que se passe aos estímulos certos no sentido de que essa busca pela felicidade não seja exercida em detrimento, algumas vezes involuntário, de outros valores caros aos demais indivíduos e à sociedade em geral.

A efetividade das punições é um fator que aumenta o ônus para o criminoso e, no nosso sistema, o Judiciário é por excelência o ator responsável pela aplicação legítima das punições. Imagine então se o Judiciário faz isso de forma displicente… É uma cadeia de raciocínio tão óbvia que me faz refletir se, de algum modo, essa leniência judicial já não chega a ser dolosamente querida – é preciso desconfiar dos propósitos de atores racionais quando, conhecedores das circunstâncias essenciais, não adotam comportamentos racionais esperados.

Vamos falar da gente. O Ministério Público conquistou nas décadas de 80 e 90 garantias institucionais e instrumentos processuais que o constituíram com uma das forças públicas mais atuantes na história recente do Brasil. Alguns colegas dessa geração convivem hoje com colegas como você, recém-empossados, dos quais estão separados por até duas gerações. A geração mais nova conhece o trabalho dos colegas da primeira década pós-Constituição? Acredita que esse trabalho consolidou uma certa tradição? Se sim, que tradição é essa?

O choque de gerações é natural dentro e fora das instituições. O que vivemos dentro do MPF é parte representativa de um cenário vivido no país, formada pelo envelhecimento da sociedade – com o consequente aumento do limite etário para o término da vida laborativa – e pelo fator “multi-habilidade” – os jovens estão conseguindo conciliar muito bem estudo e trabalho – e, em consequência, finalizam os estudos com proficiência cada vez mais cedo e, como já estão no mercado de trabalho, a exigência temporal de exercício de atividade jurídica é alcançada com facilidade.

Mas, com o cenário de criação de novas vagas – praticamente dobrando a quantidade de cargos existentes –, a realidade de acréscimo de gerações na carreira e o aumento da diferença entre os extremos etários tende se reforçar muito em breve. E, aí, acho que pode caber uma pergunta, igualmente racional, mas bem menos comum que a sua: será que os colegas da primeira década pós-Constituição conhecem e conhecerão os colegas recém-empossados?

Há algo que esquecemos reiteradamente quando direcionamos esse tipo de questão: em certas conjunturas, o melhor que se pode esperar de alguém a título de respeito é reconhecer sem conhecer. Vou usar de uma analogia aqui: certo tempo depois da fundação de uma orquestra, ocorre o recrutamento de músicos e, não raro, aqueles que já a integravam não conhecem cada aspecto dos músicos recrutados. Este desconhecimento aprofundado é bem comum, inclusive, quanto aos maestros, em especial depois que orquestras ganharam a dimensão que têm hoje. Mas o fato é que cada um – mesmo o selecionado – confia, primeiro, nos critérios de seleção e no julgamento dos selecionadores; e, segundo, confia no selecionado, de modo que cada um tem uma crença pessoal de que todos saberão desempenhar bem seus papéis. É um reconhecimento que nasce apesar do desconhecimento mútuo sobre a pessoa de cada um.

O MPF tem duas práticas muito salutares nesse sentido. A primeira delas é a atribuição, a membros da carreira, da responsabilidade por todas as fases do concurso de seleção. É um bom modo artesanal de fazer o recrutamento, porque permite uma espécie de contato inicial entre a proposta institucional, representada pelos integrantes da banca, e os candidatos, tudo na via de um procedimento objetivo. A segunda é o mecanismo de revisão mínima da atividade-fim por outros membros, que, por sua vez, são previamente conduzidos a esta função por um procedimento transparente de que participam outros tantos membros. Particularmente, acho reconfortante ter meus posicionamentos revisados por colegas mais experientes, ainda que o resultado não seja favorável. Acredito na ideia de que precisamos ser capazes de convencer e ser convencidos por argumentos racionais.

Vejo como os principais traços da “tradição” do Ministério Público a motivação e a compreensão crítica da realidade. O tempo passa, as pessoas mudam, as demandas mudam, os recursos mudam, mas com a dosagem adequada de motivação e análise crítica é possível construir um ótimo resultado.

 

Links de interesse:

“A minha vida terá valido a pena pelo bem que eu tento fazer a meus parentes próximos e a meus gatos”. Leia a nossa entrevista inaugural, com Ana Paula Ribeiro Rodrigues.

Ela diz que ‘encontrou’ o Ministério Público no entardecer da vida: quando se formou em Direito, já era auditora-fiscal da Receita Federal e graduada em Engenharia Eletrônica e Informática.

Hoje, depois de dez anos de experiência no Ministério Público Federal, sente-se como se estivesse enxugando gelo — “tudo parece ser feito sem se preocupar com resultados”; e, para piorar, acredita que sua função “é essa mesmo, já que não se espera qualquer resultado, já que as coisas são feitas para não funcionar mesmo”.

Apesar da relativa frustração, cumpre suas obrigações com um senso kantiano de seu dever. “Não sinto raiva, não dou socos no travesseiro. A melhor solução é respirar fundo e ir adiante”, conclui. No MPF, após ter trabalhado na PRM São João de Meriti está atualmente lotada na capital fluminense.

Sua entrevista é prova de que no peito dos desiludidos também bate um coração — um coração, aliás, capaz de abrigar mais de uma centena de felinos. “Eles me amam não por quem eu sou (ou não sou), mas pelo que eles são: animais que só têm amor para dar, para quem quiser receber”.

Cansada das multidões e do trânsito do Rio de Janeiro, alegra-se com as rosas que já no inverno começam a embelezar o seu jardim. Contou que chorou várias vezes vendo o filme italiano ‘A grande beleza’ (2013), pelas revelações cruas que ele faz sobre a existência humana.

Acredita que sua vida terá valido a pena pelo bem que tenta fazer, mais concretamente, a alguns parentes próximos e a seus animais. Para ela, “a escolha consciente pela ganância, a superficialidade e a falta de espiritualidade é o que têm trazido problemas à humanidade” .

Um testemunho de alguém que resiste, forte, em meio a uma visível frustração; sinal de um coração grande e de um senso de humor capaz de trazer alívio nos momentos de maior tensão. Eis o dedo de prosa que a Ana PRR, a Ana Paula, trocou comigo em nossa primeira entrevista.

 

Você é a ‘Ana PRR’. Seu sobrenome indica que você nasceu com vocação para o MPF. Como foram seus caminhos até a aprovação no concurso?

Eu ‘encontrei’ o Ministério Público já tarde na vida. Era auditora-fiscal da Receita, formada em engenharia eletrônica e informática. Já estava com minha vida estabilizada. Fui fazer faculdade de Direito por hobby, estimulada pelo gosto que peguei pela matéria jurídica ao estudá-la para o concurso da Receita. Uma semana depois de eu colar grau, foi publicado o edital do concurso do MPF (20º concurso). Fiz minha inscrição sem qualquer pretensão de ser aprovada. Preparei-me para a primeira fase lendo minhas anotações da faculdade e algumas poucas obras de matérias que eu não havia estudado na faculdade. Passei na primeira fase e, ao perceber a surpresa de alguns conhecidos meus (procuradores da fazenda nacional, que diziam que o concurso do MPF era ‘muito difícil’), passei a achar que talvez eu tivesse chance de ser aprovada (já que eu havia passado na primeira fase de um concurso ‘muito difícil’…). Tirei férias e licença de uns dois meses e meio para ficar só estudando para a segunda fase. Acabei sendo aprovada e aqui estou.

Não tem nada a ver com vocação e nem com qualquer projeto maior. Simplesmente foi o primeiro concurso jurídico que apareceu depois de eu me formar. Aliás, tenho a convicção de que essas circunstâncias contribuem para minha frustração (creio que quem chegou ao MPF em razão de vocação, de um projeto, um sonho que seja, tem pelo menos isso a que se apegar no dia-a-dia difícil).

Como vai o seu trabalho na PRRJ, Ana? Por que não se sente realizada como procuradora da República?

O trabalho vai mal, já que marcado por eternas substituições sem remuneração (as acumulações, que você também deve conhecer muito bem) e pela falta de apoio (não existe uma equipe verdadeira, já que, ressalvado o trabalho de secretaria (e olha que também é difícil achar assessoria suficientemente qualificada!), os dois estagiários e um único analista ajudam pouco, o que exige muito de mim até mesmo em casos simples).

Não me sinto realizada, por três motivos principais:

(1) As acumulações sem remuneração fazem que eu sinta que meu trabalho nada vale. Sinto-me desvalorizada.

(2) O quadro antes traçado (substituições + falta de equipe) impede um trabalho de boa qualidade. Isso porque, a fim de manter o gabinete “limpo” ou pelo menos administrável, tudo tem que ser feito de forma rápida (e rasteira). Creio que o fator determinante disso é a falta de equipe. As substituições geram aumento de volume de trabalho, mas se eu tivesse uma equipe forte, conseguiria um resultado melhor. Como a equipe não é suficiente, ela não adianta o meu trabalho, me ajuda pouco e aí tenho que abdicar muito da qualidade.

(3) Não vejo resultados. Mas não é só isso. Resultados não se controlam, não podemos garanti-los, eu sei. É que tudo parece ser feito sem se preocupar com resultados. Minha percepção é a de que estou enxugando gelo — e, pior, que minha função é essa mesmo, já que não se espera qualquer resultado, já que as coisas são feitas para não funcionar mesmo. E, aqui, a questão vai além do MP: não é só o MP que funciona mal; o sistema de persecução penal no Brasil é todo um faz-de-conta. Certa vez, um colega, ciente disso tudo e tentando dar algum sentido à nossa atuação, me disse que nossa função é fazer a sociedade crer que o sistema funciona, embora nós mesmos saibamos que não funciona. Pois, acho que nem nessa farsa estamos nos saindo bem.

Conclusão: não vejo como alguém possa se realizar em um ambiente desses. Vejo com extrema desconfiança alguns colegas, muitos até já antigos, dizerem que se realizam no MP (será que é possível na tutela? no crime, não dá!). Eu sou totalmente frustrada. Hoje em dia, e já há algum tempo, faço o meu trabalho por puro dever. Faço porque é o meu dever. Pode chamar de diretriz kantiana. Rsrsrsrs…

Com praticamente dez anos de carreira no MPF, você certamente já trabalhou com juízes com os mais variados temperamentos e métodos de trabalho. Lembra-se de ter convivido com algum gênio em sentido estrito ou com um profissional com grau de excelência acima da média? Se sim, como era esse(a) magistrado(a) em atividade?

Jamais trabalhei com nenhum profissional genial ou grau de excelência acima da média. No MPF, já encontrei dois colegas que eu diria excepcionais e um terceiro bem acima da média. Porém, isso é só de olhar de uma certa distância o trabalho deles, já que nunca trabalhei com eles propriamente. No que toca a magistrados, nunca trabalhei com nenhum que seja excepcional. Fico satisfeita quando são corretos e trabalhadores — aliás, já trabalhei com gente muito boa nesses quesitos. Penso que o sistema de justiça não precisa de gênios. O sistema tem meios de correção dos eventuais erros dos não-gênios. Seriedade e trabalho é que são imprescindíveis sempre.

Se lhe fosse oferecida a oportunidade de modificar nossa Constituição da República em qualquer de seus pontos, qual seria sua proposta? Por quê?

Não teria nada a mudar. Como vários já disseram e repetiram, não adianta, tem que mudar a cabeça das pessoas.

Trabalhando na pequena Comarca de Águas Formosas, no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, certa vez eu tive a seguinte intuição: no acervo da vara única daquela comarca havia um número imenso de processos (provavelmente 40% de todo o universo processual) cujo eventual desaparecimento ninguém – exceto o sistema de informática – notaria, pela sua relativa insignificância no quadro geral da vida de todas as pessoas envolvidas no seu andamento. Na Justiça Federal esse quadro é diferente?

Creio que não. O sistema criminal quase não gera resultados, como eu já destaquei acima ao falar da minha frustração com o trabalho. Então, logicamente, se grande parte dos processos sumirem, não fará diferença para ninguém (além dos réus que terão seus problemas resolvidos mais rapidamente, claro). Para a sociedade, nada vai mudar em termos de segurança e justiça. Se você quiser fazer sumirem inquéritos então… Nada e ninguém vai se abalar por causa disso.

Suas frustrações com o Ministério Público e com a Justiça estão muito evidentes. Elas se transformam em raiva? Você costuma dar socos no travesseiro, Ana?

Não sinto raiva, não dou socos no travesseiro e nem nada parecido. Sinto apenas repulsa e, às vezes, isso gera no máximo “desabafos” com colegas (às vezes, na nossa rede) ou com integrantes do gabinete (mas tento poupá-los, até porque não adianta e apenas reforça a repulsa; a melhor solução é respirar fundo e ir adiante).

Você é a legítima proprietária de uma centena de gatos de estimação. Isso é praticamente um pequeno povoado! Não tem medo de que seus bichos façam a revolução contra você?

Revolução? Rsrsr De jeito nenhum. Eles me amam. Não por quem eu sou (ou não sou), mas pelo que eles são: animais que só tem amor para dar, para quem quiser receber. E não é correto dizer “proprietária”. Sou apenas uma guardiã.

Conhece todos pelo nome?

Alguns não têm nome. É meio triste isso, eu sei, mas o fato é que chegaram já grandes, deixados por duas tias que faleceram. Não tinham nomes e nem eu os batizei. Mas eu conheço e amo todos e todos eles me conhecem e me amam.

Um esclarecimento: como já disse, boa parte dos meus gatos me chegou como “herança” (já que você falou em “propriedade”). Eu tinha uns vinte apenas. É difícil cuidar de cem gatos. Não só financeiramente (não é só comida, afinal, é vacina, veterinário, remédio, empregado para ajudar), mas também em termos de carinho e dedicação (gostaria de ter mais tempo com os meus gatos). Por isso, nas minhas condições, eu não recolheria cem gatos na rua. Porém, minhas tias, já morrendo, pediram-me que eu cuidasse dos gatos que elas deixaram. Eu não podia abandoná-los e nem deixar de atendê-las. Sempre procuro pensar que Deus vai continuar me ajudando a cuidar deles da melhor forma que eu posso. Acho que isso tem acontecido em boa medida, já que meus gatos são fortes e amorosos.

Em ‘A rebelião das massas’, publicado em 1930, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset disse que “As cidades estão cheias de gente. As casas, cheias de inquilinos. Os hotéis, cheios de hóspedes. Os trens, cheios de passageiros. Os cafés, cheios de consumidores. Os passeios, cheios de transeuntes. Os consultórios dos médicos famosos, cheios de pacientes. Os espetáculos, não sendo muito fora de época, cheios de espectadores. As praias, cheias de banhistas. O que antes não costumava ser problema agora passa a sê-lo quase de forma contínua: encontrar lugar”. Você costuma encontrar lugar na sua cidade? O mundo moderno, com suas tecnologias e suas massas, a deixa cansada?

Esse filósofo é dos meus. Rsrs Em 1930… Imagina… O Rio de Janeiro com certeza está cheio demais (e sei que vale para outras cidades). E me cansa, sim. Cansa muito. Sair para um cinema, por exemplo, significa pegar trânsito, rodar no estacionamento de um shopping (e esse é o melhor cenário porque, se não for em shopping, vai parar o carro onde?), pegar fila do cinema e… correr o risco de não conseguir ingresso porque… já esgotou. Para garantir a sessão (isso se o trânsito não o impedir de chegar), tem que comprar adiantado, pela internet. Se quiser fazer um lanche depois do cinema… tudo cheio… É tudo muuuuito cansativo.

Suas últimas leituras indicam seu interesse pelas causas desconhecidas das condutas humanas e do resultado de nossos esforços…

Minhas últimas leituras indicam isso? Humm, acho que só o “Subliminar”, do Mlodinow…

É que você me disse que pretendia ler, em breve, ‘Math on Trial: How Numbers Get Used and Abused in the Courtroom’. Pareceu-me que esse livro teorizasse sobre decisões judiciais cujas conclusões não guardam estreito contato com os fatos provados… De todo modo, acredita que exista por trás do mundo sensível um conjunto de fenômenos, alheios à vontade humana, efetivamente responsável pelos acontecimentos?

Acredito que a mente humana tem razões que a razão desconhece, sim. E, sim, a maior parte do que acontece está totalmente alheio à vontade humana. Costumamos achar que comandamos nossos destinos, mas apenas optamos por certas ações (e, às vezes, a opção é mais inconsciente do que consciente). É o conjunto das circunstâncias que produzirá tal ou qual resultado. Não podemos garantir resultados, apenas persegui-los de forma mais ou menos eficiente.

Acha que a ciência chegará um dia à conclusão de que a liberdade humana é uma ilusão?

Alguns pensadores já chegaram a essa conclusão!!!

Assusta-se com a existência daquilo a que a ciência, desde pelo menos Freud, chama de inconsciente? Acredita que ‘ele’, em sua atividade, obedeça a certos preceitos mais ou menos estáveis?

Não me assusto porque, sim, na linha do Mlodinow e da moderna neurociência, creio que o inconsciente também é fruto da evolução e, como tal, obedece, sim de novo, a certos preceitos mais ou menos estáveis e à lógica da sobrevivência da espécie. De mais a mais, não é o inconsciente que tem trazido problemas à humanidade, mas uma escolha consciente pela ganância, superficialidade e falta de espiritualidade.

Quais foram os últimos cinco filmes bons a que assistiu?

O melhor dos últimos tempos foi, sem dúvida, ‘A Grande Beleza’. Outros: ‘Philomena’ (ótima história), o documentário do Jango (documentário vale?). Esses vi no cinema. Para completar os cinco, cito ‘Tese sobre um homicídio’ e ‘Bravura indômita’, que vi recentemente, na Net.

A propósito, você já chorou copiosamente vendo algum filme?

O filme inteiro não. Partes de alguns filmes podem me fazer chorar bastante sim. Alguns eu choro até na reprise. Um exemplo que aconteceu ontem, mais uma vez: a primeira parte do desenho animado ‘Up’. Choro com animais também: ‘Marley’, ‘A história de Elza’ (esse é velho rsrsrs). ‘A Grande Beleza’ me fez chorar várias vezes, nas várias revelações cruas sobre a existência humana.

Se daqui a trinta anos um jovem desconhecido lhe perguntar por que terá valido a pena viver até ali, o que provavelmente você dirá? O Ministério Público terá um lugar especial nessa resposta?

Eu direi que terá valido a pena pelo bem que eu tento e terei tentado fazer a alguns (mais concretamente, a meus parentes próximos e a meus animais).

Não, o Ministério Público não terá nenhum lugar nessa resposta.

 

Links de interesse: